Academia.eduAcademia.edu

Outline

Somente Na America

2015, Fênix - Revista de História e Estudos Culturais

Abstract

Angels in America, de Tony Kushner, é uma peça que não deixa dúvidas sobre a que veio. A crítica do dramaturgo ao governo estadunidense sempre foi marcado por momentos de questionamentos e ativismos que ajudaram a solidificar o movimento gay nos EUA. Neste ensaio, procuro demonstrar uma parte dessa crítica mordaz enquanto considero as figuras históricas, ambas personagens de Angels, Roy Cohn e Ethel Rosenberg, e a figura do fantasma que tanto assombra a história daquele país.

SOMENTE NA AMERICA: ROY COHN E O FANTASMA DE ETHEL ROSENBERG Vanessa Cianconi* Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ [email protected] RESUMO: Angels in America, de Tony Kushner, é uma peça que não deixa dúvidas sobre a que veio. A crítica do dramaturgo ao governo estadunidense sempre foi marcado por momentos de questionamentos e ativismos que ajudaram a solidificar o movimento gay nos EUA. Neste ensaio, procuro demonstrar uma parte dessa crítica mordaz enquanto considero as figuras históricas, ambas personagens de Angels, Roy Cohn e Ethel Rosenberg, e a figura do fantasma que tanto assombra a história daquele país. PALAVRAS-CHAVE: Teatro – Política – Fantasmagoria ANGELS IN AMERICA: ROY COHN AND THE GOST OF ETHEL ROSENBERG ABSTRACT: Angels in America, by Tony Kushner, is a play that leaves no space for questioning. The criticism done by the playwright about the American government has always been imprinted by moments of questionings and activisms, which helped to solidify the gay movement in the USA. In this essay, I attempt to demonstrate a piece of this strong criticism while considering historical figures, both characters in Angels, such as Roy Cohn and Ethel Rosenberg, and the figure of the ghost that has always haunted the history of that country. KEY-WORDS: Theater – Politics – Phantasmagoria No I'm NOT! I fooled you Ethel! I knew who you were all along! I can't believe you fell for that ma stuff! I just wanted to see if I could finally, finally make Ethel Rosenberg sing! I WIN! Roy Cohn1 * Doutora em Estudos de Literatura, com ênfase em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense – UFF Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 2 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br Em um editorial do New York Times, de 1986, o jornalista William Safire escreveu que uma vez Roy Cohn disse a ele que “provoca o pior em seus inimigos”2 e que é “como ele os faz derrotar a si mesmos”.3 Safire e Cohn ficaram amigos quando o último trabalhava como assistente na Procuradoria em Nova York. Cohn investigava um caso que envolvia narcóticos, muito antes de se interessar por aniquilar comunistas. Segundo o jornalista, ser amigo de Roy Cohn era viver em uma montanha-russa; ele era brilhante, rude, intimidador, iconoclasta e terrivelmente impopular. Ele negava a sua homossexualidade por esta ir de encontro a sua imagem extremamente masculina na política. Ninguém o intimidava, nem o governo, nem a Máfia, nem a imprensa, nem a Igreja Católica e nenhum outro advogado que aparecesse em seu caminho. No entanto, Roy Cohn era leal, muito leal com os seus pares. Roy Cohn se transformou em uma figura notória quando indicado pelo senador Joseph McCarthy para ser o Conselheiro Chefe do Senado e liderar o combate ao comunismo nos EUA – ou melhor, às “atividades antiamericanas” – na década de 1950. Também conhecido como “caça às bruxas”, o macarthismo representou uma repressão política aos supostos comunistas dos EUA. Joseph McCarthy era um senador republicano pelo estado de Michigan, cuja paranoia o levou a acusar fantasiosamente milhares de americanos de serem militantes socialistas e insinuar que o Departamento de Estado Americano em Washington, DC, estava repleto de “comunistas fichados”. O senador que dizia “ver comunistas até mesmo embaixo de sua cama”, se notabilizou politicamente após presidir o Permanent Investigating Subcommittee of the Government Operations Committee. As perseguições de McCarthy não se limitaram ao âmbito do Governo Federal; uma das facetas do período da caça às bruxas foi caracterizar não só como estrangeiras, mas como abertamente antiamericanas, as políticas econômicas e sociais implementadas pelo New Deal. Um refluxo desta caracterização foi a criação, em 1938, do House Committee for the Investigation of Un-American Activities (HUAC). Apesar de suas atividades terem declinado durante a Segunda Guerra Mundial, devido à 1 KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada]. p. 190. Roy Cohn, personagem de Angels in America. 2 [Tradução nossa] Cf., “I bring out the worst in my enemies”.SAFIRE, William. About Roy Cohn [Op- ed]. The New York Times. New York, 04 ago. 1986: A.17 3 [Tradução nossa] That's how I get them to defeat themselves.Ibid. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 3 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br aliança entre os EUA e a URSS, elas logo seriam retomadas. A partir de então, a HUAC perseguiria ex-colaboradores de Roosevelt e, no mesmo período, voltaria suas investigações também para Hollywood, dando origem às famosas “listas negras” de atores, roteiristas e técnicos. Fernando Peixoto4 remonta à paranoica máquina de traição e medo da Era McCarthy e diz que a inclusão de Hollywood na rota das perseguições seria uma ajuda inestimável para desencadear uma ampla campanha publicitária de um patriotismo doentio. O sentimento de histeria anticomunista que dominou esse período foi, então, alimentado por uma série de eventos externos e escândalos de espionagem. Em 1948, Alger Hiss, Secretário de Estado adjunto e assessor de Roosevelt em Yalta, foi acusado de ser espião comunista por Whitaker Chambers, ex-agente soviético. Em 1949, a União Soviética explodiu a sua primeira bomba atômica, fazendo com que os norte-americanos acreditassem que eles poderiam ser o próximo alvo. Finalmente, em 1950, o governo Truman descobriu uma rede de espionagem britânico-estadunidense que passava informações para os soviéticos sobre o desenvolvimento da bomba atômica. A prisão e julgamento de Ethel e Julius Rosenberg, diretamente ajudado por Roy Cohn, acusados também de terem passado segredos sobre a bomba, acentuou a ideia do perigo comunista no país. De acordo com o próprio Cohn, em seu livro de memórias, ele passou uma grande parte daquele julgamento ao telefone conspirando com o juiz Irvin Kaufman a fim de conseguir o veredicto esperado. Programas de lealdade foram criados pelo presidente e pelo Congresso, após a vitória do partido republicano em 1946. Em fevereiro de 1950, Joseph McCarthy, em um discurso em Wheeling, na West Virginia, mostrou uma lista de 205 comunistas conhecidos que trabalhavam para o Departamento de Estado. McCarthy nunca produziu documentação alguma que comprovasse a veracidade de suas acusações, mas, nos quatro anos seguintes, ele explorou o que acreditava ter tocado o centro nervoso do público norte-americano – o medo da iminente ameaça que vinha “de fora”. Ele e seus comparsas Roy Cohn e David Schine fizeram acusações incríveis, destruindo vidas de pessoas inocentes. 4 Cf. Peixoto, Fernando. Hollywood: episódios da histeria anti-comunista Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1991 Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 4 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br Desta forma, a figura de Roy Cohn na década de 1950 estava intimamente ligada à figura do medo. Uma figura demoníaca impelida pela necessidade.5 Ávido por poder e autoenaltecimento, Cohn lançava mão dessas forças para ajudarem-no a atacar, junto com McCarthy, ainda mais os EUA. Contrária à figura de Cohn, Ethel Rosenberg, dona de casa, mãe de dois filhos pequenos, mas membro do Partido Comunista Americano, foi presa, julgada e condenada à morte pelo advogado de fato, o advogado do diabo. Ethel foi acusada pela própria cunhada de ter datilografado as anotações de seu irmão, David Greenglass, que estava envolvido em espionagem. Ethel passou dois anos no corredor da morte em Sing Sing esperando por algum tipo de clemência, aquela que somente chegou com Angels in America, em que Ethel finalmente se vingou de Roy Cohn, vendo-o definhar e morrer de uma forma tão horrível quanto a sua própria morte. Roy aparece em cena pela primeira vez sentado à sua mesa, rodeado de telefones que piscam incessantemente, tornando a sua conversa caótica para Joe Pitt, também advogado, mas ainda da Corte de Apelação, que o esperava enquanto gritava gesticulando ao telefone. ROY: Então, como está a vida na Corte de Apelação? Como está o juiz? JOE: Ele manda lembranças. ROY: Ele é um homem leal. Não é o cara mais esperto do mundo, mas ele tem educação. E uma cabeça bonita com cabelos brancos. JOE: Ele me dá muita responsabilidade. ROY: Claro, como escrever suas decisões e assinar o seu nome. JOE: Bem... ROY: Ele é um cara legal. E você cobre por ele admiravelmente.6 “Princípios contam, eu respeito princípios, eu não sou religioso, mas eu gosto de Deus e Deus gosta de mim”.7 O papel paradoxal de Roy Cohn é o mesmo papel 5 Vogel, Dan. The Three Masks of American Tragedy. Baton Rouge: Lousiana State University Press, 1974, p. 147. Dan Vogel escreve em seu ensaio The Mask of Satan que August Willhelm von Schlegel diz que Macbeth é um herói ambicioso, mas nobre, que cede a uma tentação demoníaca, impelida pela necessidade. Segundo Vogel, a interpretação do pensador alemão descreve a forma que satã é compreendido no pensamento trágico estadunidense – um ser demoníaco impelido pela necessidade. 6 [Tradução nossa] ROY: So how's life in Appeals? How's the judge?/JOE: He sends his best./ROY: He's a good man. Loyal. Not the brightest man on the bench, but he has manners. And a nice head of silver hair. /JOE: He gives me a lot of responsibility./ROY: Yeah, like writing his decisions and signing his name./JOE: Well.../ROY: He's a nice guy. And you cover admirably. Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada], p. 6. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 5 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br paradoxal de Satã para o cristianismo, lembrando as palavras de Vogel.8 Ele é, ao mesmo tempo, o inimigo e o servo de deus. A lealdade do juiz é a mesma que Cohn espera que Joe tenha agora: ele precisa que Joe se disponibilize a ir para Washington trabalhar no Departamento de Justiça e ajudá-lo em uma ação contra ele próprio, uma ação que poderia interditá-lo junto à Ordem dos Advogados. No entanto, Roy Cohn não diz para Joe de saída o porquê de querer colocá-lo nessa nova posição, mas joga com algo que é intrínseco a sua personalidade, a sua ambição: “Assistente Associado Alguma Coisa Grande. Assuntos Internos, o coração da selva, alguma coisa bacana com influência”.9 Ele ainda completa dizendo que é um “momento ótimo para estar em Washington”10 e que “isso significaria muito para ele”.11 Influência é algo que Roy Cohn tinha demais e com um simples telefonema Joe estaria lá, no meio da selva. Além do mais, a conversa que Roy tem com o médico quando descobre ter AIDS sugere a sua origem satânica. Roy quer que o médico o chame de homossexual, para então poder destruí-lo. Caso ele o fizesse ele iria “continuar, sistematicamente, a destruir sua reputação, sua prática e sua carreira no estado de Nova York. Algo que o médico sabe que Cohn poderia fazer”.12 Em um artigo sobre o advogado publicado no St. Louis Post-Dispatch, do Missouri, de 1992, o jornalista lembra ao leitor que Cohn havia aperfeiçoado suas técnicas de intimidação e insinuação de tal maneira que conseguiu arruinar vidas e mais vidas durante a era McCarthy. Ao final desta era, Cohn construiu uma sólida carreira em Nova York baseada em sua reputação e lá planejava arruinar mais uma, a do próprio médico. Como é possível ver no exemplo a seguir: Não. Como todos os rótulos eles te dizem uma coisa, somente uma coisa: onde um indivíduo identificado de alguma maneira se encaixa na cadeia alimentar, na ordem de mordiscar. Nenhuma ideologia ou gosto sexual, mas algo muito mais simples, influência. Não quem eu 7 [Tradução nossa] (...) principles count, I respect principles, I'm not religious but I like God and God likes me. Cf., Ibid., p. 9. 8 Cf. VOGEL, Dan. The Three Masks of American Tragedy. Baton Rouge: Lousiana State University Press, 1974. 9 [Tradução nossa] Associate Assistant Something Big. Internal Affairs, heart of the woods, something nice with clout. Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada], p. 10. 10 [Tradução nossa]. It’s a great time to be in Washington, Joe. Cf., Ibid., p. 11. 11 [Tradução nossa] And it would mean something to me. You understand? Cf., Ibid. 12 [Tradução nossa]. No, say it. I mean. Say: "Roy Cohn, you are a homosexual." And I will proceed, systematically, to destroy your reputation and your practice and your career in New York State, Henry. Which you know I can do. Cf., Ibid., p. 70 Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 6 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br como, ou quem me come, mas quem vai atender ao telefone quando eu ligar, quem me deve favores. Isto é a que um rótulo se refere. Agora, para alguém que não entende este conceito, homossexual é o que eu sou por que eu faço sexo com homem. Mas, sério, isto é errado. Homossexuais não são homens que dormem com outros homens. Homossexuais são homens que depois de quinze anos tentando, não conseguem passar uma porra de um projeto-de-lei anti- discriminatório pela Câmara. Homossexuais são homens que não conhecem ninguém e que ninguém conhece. Que não têm influência alguma. Isto se parece comigo, Henry? [...] Eu não quero que você se impressione. Eu quero que você entenda. Isto não é sofisma. E não é hipocrisia. Isto é realidade. Eu faço sexo com homens. Mas diferente de praticamente todos os outros homens de quem isto é verdade, eu levo o cara que eu estou comendo para a Casa Branca e o presidente Reagan sorri para a gente e dá a mão para ele. Porque o que eu sou é definido por quem eu sou. Roy Cohn não é um homossexual. Roy Cohn é um homem heterossexual que fode com homens.13 Roy, com certeza, estava no topo da cadeia alimentar. Como um tubarão14, ele poderia comer tudo e a todos que pudessem prejudicá-lo de alguma maneira, não interessando quem pudesse ser. Contrário ao que Roy poderia fazer com o médico caso ele faltasse com a sua lealdade, o advogado explica para Joe como se dá o poder, uma mão sempre lavando a outra. Costa Lima, ao comparar Maquiavel e Merleau-Ponty ao se referirem ao poder, argumentou que o poder não se justifica naturalmente. O pensador brasileiro acredita que “a política é o que faz combinar vida material com ficções necessárias para um viver coletivo”.15 Para ele, 13 [Tradução nossa] No. Like all labels they tell you one thing and one thing only: where does an individual so identified fit in the food chain, in the pecking order? Not ideology, or sexual taste, but something much simpler: clout. Not who I fuck or who fucks me, but who will pick up the phone when I call, who owes me favors. This is what a label refers to. Now to someone who does not understand this, homosexual is what I am because I have sex with men. But really this is wrong. Homosexuals are not men who sleep with other men. Homosexuals are men who in fifteen years of trying cannot pass a pissant anti-discrimination bill through City Council.Homosexuals are men who know nobody and who nobody knows. Who have zero clout. Does this sound like me, Henry? (...)/I don't want you to be impressed. I want you to understand. This is not sophistry. And this is not hypocrisy. This is reality. I have sex with men. But unlike nearly other man of whom this is true, I bring the guy I'm screwing to the White House and President Reagan smiles at us and shakes his hand. Because what I am is defined entirely by who I am. Roy Cohn is not a homosexual. Roy Cohn is a heterosexual man, Henry, who fucks around with guys. [grifos do autor] Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada] p. 71-72. 14 Nos EUA, os advogados são chamados de shark [tubarão]. Shark deriva da palavra alemã schurke que significa parasita avarento. A ligação entre um e outro foi feita rapidamente na cultura estadunidense. 15 LIMA, Luiz Costa. História. Ficção. Literatura. Uma breve apresentação. Revista Eutomia, ano I, v. l, p. 171, jul. 2008. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 7 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br o poder é alguma coisa que não se justifica naturalmente e, se não se justifica naturalmente, ele, poder convence melhor iludindo, indicando, remetendo, sugerindo, antes a liberdade que o terror; terror e liberdade são duas armas do poder, mas a primeira é mais eficaz do que a segunda.16 De fato, o que Roy Cohn faz é aterrorizar as pessoas à sua volta, e é esse terror exercido por ele que faz as pessoas se curvarem à sua vontade (da mesma forma que o demônio faria às pessoas curvarem à vontade dele). O exemplo que Cohn dá para Joe explicita esta teoria: Todo mundo que se dá bem neste mundo se dá bem por que alguém mais velho e mais poderoso se interessou. O maior recurso do mundo, eu acho, é ser um bom filho para um pai que o empurra para frente, eu devo a minha vida a eles, homens muito poderosos. Walter Winchell, Edgar Hoover. Joe McCarthy, principalmente. Ele me valorizou porque eu era e sou, um bom advogado, mas ele me amava porque eu era e sou um bom filho. Ele era um homem muito difícil, na defensiva e cauteloso, e eu o fazia mostrar o lado carinhoso dele. Ele teria morrido por mim. Isto te deixa embaraçado?17 Ser um bom filho significa ser leal e sempre ajudar quem te ajudou no passado. A traição era algo inaceitável. Para Cohn, o relacionamento entre pai e filho é central à vida. O filho é a continuação, o herdeiro do poder do pai. O filho deve oferecer ao pai a sua vida como um recipiente para carregar os sonhos do pai. Às vezes esse pai precisa ser frio a fim de fortalecer o filho, pois o mundo em que ele vive não é um bom mundo. Roy agora quer ajudar a Joe, se tornar parte da família, ser um bom pai para ele. Poucas pessoas sabem disso e eu só estou te contando porque... eu não tenho medo da morte. O que a morte pode trazer que eu não conheço? Eu vivi; a vida é o pior. Me escuta, eu sou um filósofo, Joe. Você precisa fazer isso. Você precisa precisa precisa. Amor é uma armadilha. Responsabilidade, também é uma armadilha. De pai para filho eu te digo: A vida é cheia de horror; ninguém escapa, ninguém, salve-se. Qualquer coisa que o puxe para baixo, qualquer coisa que precise de você, que te ameace. Não tenha medo; as pessoas estão muito amedrontadas; não tenha medo de viver ao sabor do vento, nu, 16 Ibid. 17 [Tradução nossa]: Everyone who makes it in his world makes it because somebody older and more powerful takes an interest. The most precious asset in life, I think, is the ability to be a good son to a father who pushes them farther, I owe my life to them, powerful, powerful men. Walter Winchell, Edgar Hoover. Joe McCarthy most of all. He valued me because I was and I am a good lawyer, but he loved me because I was and am a good son. He was a very difficult man, very guarded and cagey; I brought out something tender in him. He would have died for me. Does this embarrass you? Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada] p. 91 Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 8 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br sozinho... Aprenda pelo menos isto: o que você é capaz. Não deixe nada ficar no seu caminho.18 Não deixar nada ficar no seu caminho tem somente um sentido para Roy Cohn: retirar tudo e todos que possam atrapalhar a sua jornada, lembrar que os fins sempre justificarão os meios. No entanto, na peça, a morte poderia ainda trazer muitas surpresas que ele desconhecia. A vida, segundo o advogado, é cheia de horror; no entanto, a morte (ou a eminência dela) também é, e será ela que o amedrontará de uma forma que ele nunca imaginaria; de fato, somente a presença da morte o desafiaria. E a morte vem na forma de um fantasma já conhecido por Cohn. Ethel Rosenberg volta para reivindicar o que é dela de direito. O espectro, que também para assombra Roy Cohn, vem lembrá-lo não somente do seu passado, mas do seu presente. O fantasma de Ethel é a representação do demônio de Cohn, também impelido pela necessidade, mas, desta vez, a necessidade é de vingança. Os horrores da morte se confundem com os horrores da vida. O medo de não pertencer mais à Ordem dos Advogados ainda em vida arrasta-se praticamente até o momento da morte de Cohn. Em 1985, o New York Times publicou um artigo que explicava o motivo pelo qual Roy Cohn poderia perder a licença para advogar. Segundo Sydney H. Schanberg, que também pertencia ao círculo de amizades de Cohn, o advogado foi acusado de usar indevidamente dinheiro de seus clientes e estava esperando a decisão final da Corte de Apelação da Suprema Corte. Segundo o jornalista, Cohn, um homem muito poderoso e com acesso livre à Casa Branca, sobreviveu a vários embaraços legais que envolviam a sua conduta pouco ética, incluindo vários processos federais; curiosamente, todos terminaram com a sua absolvição. Os processos, da mais variada natureza de ilegalidades, incluiam conspiração, obstrução de justiça, suborno e extorsão. A explicação dada por Cohn é a mais rasa possível: algumas pessoas ainda estariam tentando se vingar dele por causa dos ataques aos comunistas na década de 1950, quando atuou como conselheiro do senador Joseph McCarthy. 18 [Tradução nossa]. Few people know this and I'm telling you this only because... I'm not afraid of death. What can death bring that I haven't faced? I've lived; life is the worst. Listen to me, I'm a philosopher. Joe. You must do this. You must must must. Love, that's a trap. Responsibiity; that's a trap too. Like a father to a son I tell you this: Life is full of horror; nobody escapes, nobody; save yourself. Whatever pulls you on, whatever needs from you, threatens you. Don't be afraid; people are so afraid; don't be afraid to live in the raw wind, naked, alone... Learn at list this: What you are capable of. Let nothing stand in your way. Cf., Ibid., p. 96 Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 9 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br O fantasma de Ethel Rosenberg,19 como o fez Die Alte anteriormente, volta para assombrar o presente de Roy Cohn. Ethel Rosenberg também não aponta para um futuro, mas para o mesmo presente distópico que somente serve para apavorar ainda mais os que nele vivem. Em um diálogo com Joe, Cohn lembra-lhe que Ethel Rosenberg ainda estaria viva se não fosse por ele. Durante o julgamento, ele estava o tempo inteiro conversando com o juiz ao telefone. Ethel olha para Cohn e diz que ele “não parece bem”.20 Para ela, a “diversão acabou de começar”.21 Vamos ao trecho: ROY: Bem, você esta perdendo o seu tempo! Eu dou mais medo do que qualquer um de vocês qualquer dia da semana! Então, que seja, Ethel! BOOO! MELHOR MORTO DO QUE VERMELHO! Alguém está tentando me dar uma sacudidela? HAH! HAH! Do trono de Deus no paraíso `a barriga do inferno, vocês todos podem se foder e então pular no lago porque EU NÃO TENHO MEDO DE VOCÊ OU DA MORTE OU DO INFERNO OU DE NADA! ETHEL ROSENBERG: Te vejo logo, Roy. Julius manda lembranças. ROY: Certo, manda isto para o Julius!22 Roy mostra o dedo do meio para ela. Apesar de afirmar que Ethel não o amedronta, Roy está apavorado por causa da doença. Ele tenta se livrar de Ethel, mas cai no chão durante mais um ataque de dor no estômago. Ethel Rosenberg chama a ambulância e, de alguma forma, salva Roy Cohn da morte imediata – tudo é válido para prolongar o sofrimento do advogado. A ambulância demora um pouco a chegar, mas Cohn diz que “tem todo o tempo do mundo”.23 Ethel Rosenberg acaba por concordar que ele realmente tem todo o tempo do mundo e afirma que ele é agora um ser imortal: ETHEL ROSENBERG: Você é imortal. 19 O fantasma de Die Alte de A Bright Room Called Day (primeira peça escrita por Kushner) é apresentado como uma aparição distópica, pois anda na direção contrária a que Freddie Rokem considera em seu livro Philosophers and Thespians – que os fantasmas quando aparecem em cena apontam para uma utopia. Die Alte não aponta para nenhuma utopia. O fantasma da velha traz consigo as barbáries do passado e tenta lembrar a Agnes de sua insaciabilidade. Segundo o espectro, o presente iria, de fato, repetir o passado. Logo, o presente de Die Alte apontava para um mundo de barbáries extremas onde é impossível saciar a fome. 20 [Tradução nossa] You don't look good, Roy.Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada] p. 190 21 [Tradução nossa] Well the fun's just started.Cf., Ibid., 191. 22 [Tradução nossa] ROY: Well you’re wasting your time! I’m scarier than you any day of the week! So, be it, Ethel! BOOO! BETTER DEAD THAN RED! Somebody trying to shake me up? HAH! HAH! From the throne of God in heaven to the belly of hell, you can all fuck yourselves and then go jump in the lake because I’M NOT AFRAID OF YOU OR DEATH OR HELL OR ANYTHING!/ETHEL ROSENBERG: Be seeing you soon, Roy. Julius sends his regards./ROY: Yeah, well send this to Julius! Cf., Ibid. 23 [Tradução nossa] I have all the time in the world. Cf., Ibid., 193 Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 10 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br ROY: Eu sou imortal. Ethel. Eu forcei meu caminho história adentro. Eu nunca vou morrer. ETHEL ROSENBERG: A história está para abrir-se. O milênio se aproxima.24 Roy Cohn, de fato, forçou o caminho para figurar como um personagem notório da história, alguém que figuraria nos livros de história. A trajetória malévola de Cohn o transformará também em um fantasma, mas em um fantasma demoníaco que usa a lealdade de seus pares para manipular o poder. O fantasma de Cohn iria aterrorizar as mentes do futuro; curiosamente, a malignidade de Cohn iria apontar para uma história que não poderia ser repetida; no entanto, esta história se repetiu. Apesar de a roupagem ter sido diferente, as bruxas foram caçadas novamente no ano de 2001. A questão agora ainda é no que se baseia essa lealdade. Manipular através do medo é algo que Roy Cohn sabia fazer com maestria, vide as milhares de vidas que arruinou junto com McCarthy na década de 1950. Para Martin, em uma conversa com Cohn e Joe: Está acontecendo uma revolução em Washington, Joe. Nós temos um novo plano e finalmente um líder de verdade. Eles recuperaram o Senado, mas nós temos as cortes. Nos anos 90 a Suprema Corte será totalmente republicana e a Justiça Federal - juízes republicanos, como minas plantadas em todos os lugares, para todos os lugares que virarem. Ação afirmativa? Entra na justiça. Boom! Explosão de mina. E nós vamos fazer da nossa maneira em praticamente tudo: aborto, defesa, América Central, valores familiares, um clima de investimento vivo. Nós temos a Casa Branca até o ano 2000. E além. Um posto permanente na Sala Oval? É possível. Até 92 nós recuperaremos o Senado, e em dez anos o sul nos dará a Casa. É realmente o fim do liberalismo. O fim do socialismo do New Deal. O fim do humanismo secular ipso facto. O nascimento de uma genuína personalidade da política americana. Modelado em Ronald Wilson Reagan.25 24 . [Tradução nossa] ETHEL ROSENBERG: You’re immortal./ROY: I’m immortal. Ethel. I have forced my way into history. I ain’t never gonna die./ETHEL ROSENBERG: History is about to crack wide open. Millenium approaches. [grifos do autor] Cf., Ibid. 25 [Tradução nossa] It’s a revolution in Washington, Joe. We have a new agenda and finally a real leader. They got back the Senate but we have the courts. By the nineties the Supreme court will be block-solid Republican appointees, and the Federal bench - Republican judges like land mines, everywhere, everywhere they turn. Affirmative action? Take it to court. Boom! Land mine. And we’ll get our way on just about everything: abortion, defense, Central America, family values, a live investment climate. We have the White House locked till the year 2000. And beyond. A permanent fix on the Oval Office? It’s possible. By ’92 we’ll get the Senate back, and in ten years the South is going to give us the House. It’s really the end of Liberalism. The end of New Deal Socialism. The end of ipso facto secular humanism. The dawning of a genuinely American political personality. Modeled on Ronald Wilson Reagan. Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada] p. 106 Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 11 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br Colocar todo o Partido Republicano na Casa Branca significaria controlar o país, isto é, manipular todo o país na direção que mais beneficiasse aquele grupo de pessoas. É também nesse momento que o espectador toma consciência do interesse de Roy Cohn por Joe Pitt. Cohn mostra finalmente a Joe a carta que recebeu da Ordem dos Advogados do estado de Nova York. Segundo ele, a Ordem “tentará expulsá-lo”26 de lá. “Vingança”27 é a explicação dada por Martin. ROY: Todo o estabelecimento. As suas regrinhas. Porque eu não tenho regras. Porque eu não vejo a lei como uma coleção arbitrária e morta de dictums antiquados, eles vão, eles não vão, porque, porque eu sei que a lei é um órgão flexível, respirante, suador... porque, porque... (...) Estou a ponto de ser julgado, Joe, por um júri que não é um júri dos meus pares. O comitê de expulsão: cavalheiros gentis advogados Brahmin, homens que pertencem ao clube da cidade. Eu ofendo essas pessoas, para esses homens ... eu sou o que, Martin, algum tipo de judeuzinho anão? (...) Advogados muito chiques, esses advogados do comitê, advogados metidos com clientes corporativos metidos e casos complicados. Processos de antitrust. Desregulação. Controle do meio-ambiente. Casos complexos como estes precisam da cooperação do Departamento de Justiça como as flores precisam do sol. Você não diria que é uma descrição perfeita, Martin? (...) Sem a luz do sol, Joe, esses casos e os advogados metidos que os representam vão murchar e morrer. Um amigo bem colocado, alguém no Departamento de Justiça, digo, pode desligar o sol. Criar uma sombra a meu favor. Fazê-los tremer de frio. Se eles se excederem. Eles temeriam aquilo. JOE: Roy, não estou entendendo. ROY: Sim, você está. JOE: Você não está me pedindo para... Mesmo se eu aceitar o emprego, seria ilegal interferir. Com as audiências. É anti-ético. Não. Eu não posso. (...) ROY: Isto é... sucos gástricos borbulhando, são enzimas e ácidos, é intestinal é o que isto é, movimento intestinal e carne vermelha - isto fede, é política, Joe, o jogo de estar vivo. E você acha que você... O quê? Acima de quê? Acima de vivo é o quê? Morto! Nas nuvens! Você está na terra, diabos! Coloque o pé, fique por um tempo. Eu estou doente. Eles sentem o cheiro da minha fraqueza. Eles querem sangue desta vez. Eu preciso de olhos na Justiça. Na Justiça você vai me proteger. (...) 26 [Tradução nossa] They're gonna try to disbar me. Cf., Ibid., 110 27 [Tradução nossa] Revenge. Cf., Ibid. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 12 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br Martin é o cara do Ed. E Ed é de Reagan. Então Martin é o cara de Reagan. E você é o meu. Isto nunca vai acontecer? Entende? Eu vou ser advogado, Joe, eu vou ser advogado, Joe, eu vou ser uma porra de um membro legalmente licenciado da Ordem dos Advogados, como meu pai era, até o meu último dia amargo na terra, Joseph, até o dia da minha morte.28 Roy Cohn precisa agora de um homem leal a ele no Departamento de Justiça, alguém que manipule as informações de alguma maneira, alguém que seja “o homem dele” dentro da Justiça, alguém que, paradoxalmente, mantenha a venda nela. Os olhos que o advogado precisa na Justiça não são os dela em si, mas os de alguém que estivesse do seu lado, alguém que fosse capaz de manipular a informação e virar o processo em seu favor. Retirar a venda da Justiça e dar-lhe olhos seria a morte para Cohn, mas desta vez esta morte não seria uma metáfora. Mesmo na hora da morte, metafórica ou não, Roy Cohn mostra as suas garras. Roy Cohn pergunta a Joe se ele já ouviu falar em Ethel Rosenberg e como as suas ações ajudaram a condená-la à morte: Você sabe quais foram os meus maiores sucessos, Joe, na minha vida, o que eu sou capaz de olhar e me orgulhar? E eu ajudei a fazer presidentes e a desfazê-los e prefeitos e mais juízes do que qualquer um em NYC - E muitos milhões de dólares, sem imposto - e o que você acha que significa mais para mim? Você já ouviu falar de Ethel Rosenberg? Hein, Joe? JOE: Bem, sim, eu acho... sim. 28 [Tradução nossa] ROY: The whole Establishment. Their little rules. Because I know no rules. Because I don’t see the Law as a dead and arbitrary collection of antiquated dictums, thou shall, thou shalt not, because, because I know the Law’s a pliable, breathing, sweating… organ, because, because… (…)/I’m about to be tried, Joe, by a jury that is not a jury of my peers. The disbarment committee: genteel gentleman Brahmin lawyers, country-club men. I offend them, to these men … I’m what, Martin, some sort of filthy little Jewish troll? (...)/Very fancy lawyers, these disbarment committee lawyers, fancy lawyers with fancy corporate clients and complicated cases. Antitrust suits. Deregulation. Environmental control. Complex cases like these need Justice Department cooperation like flowers need the sun. Wouldn’t you say that’s an accurate assessment, Martin?(...) Without the light of the sun, Joe, these cases, and the fancy lawyers who represent them, will wither and die. A well-placed friend, someone in the Justice Department, say, can turn off the sun. Cast a deep shadow on my behalf. Make them shiver in the cold. If they overstep. They would fear that. /JOE: Roy. I don’t understand./ROY: You do./JOE: You’re not asking me to… Even if I said yes to the job, it would be illegal to intervene. With the hearings. It's unethical. No. I can't. (…)/ROY: This is… this is gastric juices churning, this is enzymes and acids, this is intestinal is what this is, bowel movement and blood-red meat – this stinks, this is politics, Joe, the game of being alive. And you think you’re… What? Above what? Above alive is what? Dead! In the clouds! You’re on earth, goddammit! Plant a foot, stay a while. I’m sick. They smell I’m weak. They want blood this time. I must have eyes in Justice. In Justice you will protect me. (...) Martin's Ed's man. And Ed's Reagan's man. So Martin's Reagan's man. And you're mine. This will never be? Understand me? I'm gonna be a lawyer, Joe, I'm gonna be a lawyer, Joe, I'm gonna be a goddam motherfucking legally licensed member of the bar lawyer, just like my daddy was, till my last bitter day on earth, Joseph, until the day I die. Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada] p. 110-115. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 13 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br ROY: Sim. Sim. Você ouviu falar de Ethel Rosenberg. Sim. Talvez você até tenha lido sobre ela nos livros de história. Se não fosse por mim, Joe, Ethel Rosenberg estaria viva hoje, escrevendo alguma coluna de autoajuda para alguma revista feminina. Ela não está. Porque durante o julgamento, Joe. Eu estava ao telefone todos os dias falando com o juíz... JOE: Roy... ROY: Todos os dias, fazendo o que eu faço de melhor, falando ao telefone, tendo certeza que aquela judiazinha tímida na cadeira dos réus cumprisse com a sua obrigação com a América, com a história. Aquela mulher doce e feia, dois filhos, boo-hoo-hoo, que nos lembrava das nossas mamãezinhas judias - ela chegou perto de ser condenada à prisão perpétua; eu implorei até chorar para que ela fosse condenada à morte. Eu. Eu fiz aquilo. Eu teria apertado a porra do botão se me deixassem. Por quê? Porque eu odeio traidores. Porque eu odeio comunistas. Foi legal? Foda-se legal. Eu sou um cara legal? Foda-se legal. Eles falam coisas horríveis sobre mim no Nation. Foda- se o Nation. Você quer ser Legal, você quer ser Eficaz? Faça a lei, ou se sujeite a ela. Escolha. Sua mulher escolheu. Uma semana a partir de hoje, ela vai estar de volta. ELA sabe conseguir o que ELA quer. Talvez eu deva mandá-la para Washington. (...) JOE: Você não quer dizer o que está falando. Roy, você era o Procurador Assistente dos Estados Unidos no caso Rosenberg, se comunicar com o juiz durante o julgamento seria... censurável, no mínimo, provavelmente conspiração e... em um caso que resultou em execução, é... ROY: O quê? Assassinato?29 Roy estava no seu quarto de hospital fazendo o que ele dizia saber fazer melhor, falando ao telefone. A dor no seu abdômen é incrível agora, o que o faz alucinar 29 [Tradução nossa] ROY: (…) You know what my greatest accomplishment was, Joe, in my life, what I am able to look back on and be proudest of? And I have helped make Presidents and unmake them and mayors and more goddam judges than anyone in NYC ever- AND several million dollars, tax-free – and what you think means the most to me? You ever heard of Ethel Rosenberg? Huh, Joe, huh? /JOE: Well, yeah, I guess I… Yes./ROY: Yes. Yes. You have heard of Ethel Rosenberg. Yes. Maybe you even read about her in the history books. If it wasn’t for me, Joe, Ethel Rosenberg would be alive today, writing some personal-advice column for Ms. Magazine. She isn’t. Because during the trial, Joe, I was on the phone every day, talking with the judge…/JOE: Roy…/ROY: Every day, doing what I do best, talking on the telephone, making sure that timid Yid nebbish on the bench did her duty to America, to history. That sweet unprepossessing woman, two kids, boo-hoo-hoo, reminded us all of our little Jewish mamas – she came this close to getting life; I pleaded till I wept to put her in the chair. Me. I did that. I would have fucking pulled the switch if they’d have let me. Why? Because I fucking hate traitors. Because I fucking hate communists. Was it legal? Fuck legal. Am I a nice man? Fuck nice. They say terrible things about me in the Nation. Fuck the Nation. You want to be Nice, or you want to be Effective? Make the law, or subject to it. Choose. Your wife chose. A week from today, she’ll be back. SHE knows how to get what SHE wants. Maybe I ought to send her to Washington. (...)/JOE: You can’t possibly mean what you’re saying. Roy, you were the Assistant United States Attorney on the Rosenberg case, ex-parte communication with the judge during the trial would be… censurable, at least, probably conspiracy and … in a case that resulted in execution, it’s…/ROY: What? Murder? Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada] p. 185-187 Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 14 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br novamente com a presença de Ethel Rosenberg. Ethel aparece vestida de chapéu e casaco, dirige-se a uma cadeira perto da cama e senta-se, olhando para ele, silenciosamente. Ele a observa entrar, mas continua falando ao telefone, sem tirar os olhos dela. Ainda ao telefone, Roy afirma não existir documento algum que comprove as acusações contra ele e que já tinha sido inocentado duas vezes pelo mesmo crime. Ele ainda acrescenta que nunca matou ninguém; no entanto, no momento em que afirma não ter matado ninguém, olha para o fantasma de Ethel Rosenberg no canto do quarto e diz “excluindo a presente companhia”, e “você mereceu”.30 Roy consegue fazer Ethel rir, se deleitando com a dor que ele está sentindo. O sofrimento de Roy começa a divertir a aparição. Eu não confio neste hospital. Pelo que eu saiba a porra da Lillian Hellman está no porão trocando os comprimidos de lugar - não, espera, ela morreu, não morreu? Ah, caramba, memória, é - ei Ethel, a Lillian morreu, você a viu lá em cima, feia, feiona, um nariz como... até um judeu deve se preocupar com um nariz como aquele. Você viu alguém que corresponda a essa descrição lá no Paraíso Vermelho? Ahn? Ela não quer falar comigo. Ela acha que está fazendo algum tipo de vigília ou coisa parecida.31 A referência ao inferno no nome da dramaturga fica claro: hell em inglês significa inferno e, a partir daí, Roy Cohn poderia fazer qualquer tipo de trocadilho que lhe interessasse. O paraíso vermelho, ou paraíso dos comunistas, remete ao inferno, na verdade. O local para o qual ele acredita que todos os comunistas devam ir depois da morte.32 No entanto, Ethel não responde a ele. 30 [Tradução nossa] I have done things in my life but I never killed anyone. (…) Present company excepted. And you deserved it. Cf., Ibid., p. 71 31 [Tradução nossa] I don’t trust this hospital. For all I know Lillian fucking Hellman is down in the basement switching the pills around – no, wait, she’s dead, isn’t she. Oh boy, memory, it’s – hey Ethel, didn’t Lillian die, did you see her up, there, ugly, ugly broad, nose like a … like even a Jew should worry mit a punim like that. You seen somebody fitting that description up there in Red Heaven?? Hah? She won’t talk to me. She thinks she’s some sort of deathwatch or something. Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada] p.72. 32 Cf. David Frum. Disponivel em: <www.davidfrum.com>. Acesso: 19 fev. 2014. A história conta que Lillian Hellman, assim como Arthur Miller, foi submetida ao HUAC (House Un-American Activities Committee) em 1950. Lillian era amante de Dashiell Hammett, um comunista militante que fazia parte do Partido Comunista. Como Arthur Miller antes dela, Hellman teria de listar os nomes das pessoas que conhecia e que poderiam ter alguma ligação com comunistas. Como ela também não contribuiu com o comitê, foi colocada na lista negra de Hollywood por muitos anos. Apesar de afirmar que o comitê aplaudiu ao final de sua declaração, David Frum, jornalista político, diz que essa afirmação é totalmente fictícia. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 15 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br O fantasma de Ethel Rosenberg, da mesma forma que o fantasma de Die Alte, não volta para mostrar uma perspectiva diferente de um futuro melhor, mas para lembrar Cohn do passado e de todas as maldades que ele perpetrou – não somente com ela – como uma forma de vingança. O mundo presente e distópico de Ethel se equipara ao mundo de Die Alte; como a última, Ethel Rosenberg é uma figura que representa o passado (e porque não dizer também o presente), mas, em hipótese alguma, aponta em direção a uma utopia. O futuro a que Ethel aponta é ruim tanto para Roy quanto para o resto da humanidade. O que o fantasma esperava era o ônibus que iria levá-la para Yonkers, onde ficava o comitê que iria expulsá-lo da Ordem dos Advogados, e, obviamente, era o tipo de espetáculo que Ethel não poderia perder. Apesar de Roy Cohn acreditar que, por ser ela uma traidora condenada, ela sabe que “pode atravessar das paredes”.33 Um poder que ele ainda não tinha. Assim: DIABO! Morcego sanguessuga da porra! A pior coisa sobre estar doente na América, Ethel, é que você é chutado da parada. Americanos não tem utilidade para o doente. Olhe para Reagan: ele é tão saudável que é dificilmente humano, ele tem cem anos e não parece, ele leva um tiro no peito e em dois dias está lá andando a cavalo de pijama. Quer dizer, quem faz isso? É a América. Simplesmente não é um país para enfermos.34 Roy agora está acizentado, abatido e em um péssimo estado de saúde. Ele veste uma camisola de hospital e fraldas para adultos. Fazendo muita força para falar, ele lembra a Joe que: A minha geração, nós tinhamos clareza. Não tínhamos medo de olhar profundamente no coração do mundo, que fosso, que pesadelo pode-se ver lá - eu olhei, eu procurei por toda a minha vida pelo fundo total, e eu o encontrei, acredite em mim: infernal. Que trágica, brutal e curta é a vida. Como as pessoas são pecadoras. O coração imutável daquilo que somos, que sangra através de qualquer coisa que possamos nos tornar. Todo o resto é vaidade. Eu não conheço mais o mundo. Depois que morrer, eles dirão que foi por dinheiro e pelas manchetes. Mas nunca foi pelo dinheiro: é a coragem que conta. Eu nunca tremi. Você: lembre-se.35 33 [Tradução nossa]. I'll walk through a wall. Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada] p. 78. 34 [Tradução nossa]. Fucking SUCCUBUS! Fucking bloodsucking old bat! The worst thing about being sick in America, Ethel, is you are booted out of the parade. Americans have no use for sick. Look at Reagan: He’s so healthy he’s hardly human, he’s a hundred if he’s a day, he takes a slug in his chest and two days later he’s out west riding ponies in his PJ’s. I mean who does that? That’s America. It’s just no country for the infirm. Cf., Ibid. 35 [Tradução nossa]. My generation, we had clarity. Unafraid to look deep into the miasma at the heart of the world, what a pit, what a nightmare is there – I have looked, I have searched all my life for absolute bottom, and I found it, believe me: Stygian. How tragic, how brutal and short life is. How Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 16 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br O coração do mundo para o advogado é o que ele realmente queria que ele fosse: infernal. O mundo dele, e provavelmente de todas as pessoas a sua volta, era um pesadelo. O legado que ele queria deixar era justamente este, os limites impossíveis da manipulação do poder. O jogo de xadrez com o demônio cuja derrota lhe custaria a própria vida, isto é, lhe custaria a própria honra. A doença de Roy Cohn fez com que as audiências de expulsão da Ordem dos Advogados fossem adiadas algumas vezes; no entanto, não impediu que fosse dela banido. Perder a carteira da ordem era perder todo o poder e, para Roy, significava perder a própria vida: “A Lei: o único clube a que eu quis pertencer. E antes que tirem isso de mim, eu vou morrer”.36 Cohn sabia que a única coisa que tinha junto dele eram os mortos, de fato, o fantasma de Ethel Rosenberg, que somente veio para lembrá-lo que ele iria perder a carteira da Ordem. Ou perder o poder, a única coisa que tinha valor para ele. ROY: Estou indo, Ethel. Finalmente, finalmente acabei neste mundo, finalmente. Todos os meus inimigos estarão em pé na outra margem, bocas abertas como peixes idiotas, enquanto que o Todo Poderoso parte o Mar da Morte e deixa seu Royzinho cruzar para o Jordão. Na terra seca e ainda um advogado. ETHEL: Não conte as suas galinhas, Roy. Acabou. ROY: Acabou? ETHEL: Eu queria que a boa nova viesse de mim. O júri decidiu contra você. (...) Você não é mais um advogado. ROY: Mas eu morri? ETHEL: Não. Eles derrotaram você. Você perdeu. Decidi vir aqui para ver se conseguia te perdoar. Você a quem eu odiei tanto, meu ódio subiu aos céus e fez uma pequena estrela no céu. É a estrela do ódio da Ethel Rosenberg, e ela brilha todos os anos por uma noite apenas, dezenove de junho. Ela brilha verde como ácido. Eu vim te perdoar, mas tudo o que eu consigo é me divertir com a sua miséria. A esperança de te ver morrer de uma forma ainda mais terrível do que a minha. E você está morrendo na merda, Roy, derrotado. E você conseguiu me matar, mas você nunca conseguiu me derrotar. Você nunca venceu. E quando você morrer tudo o que vão dizer é: melhor se ele nunca tivesse vivido.37 sinful people are. The immutable heart of what we are that bleeds through whatever we might become. All else is vanity. I don’t know the world anymore. After I die they’ll say it was for the money and the headlines. But it was never the money: It’s the moxie that counts. I never wavered. You: remember. Cf., Ibid., p. 111-112. 36 [Tradução nossa] The Law: the only club I ever wanted to belong to. And before they take that from me, I’m going to die. Cf., Ibid., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada] p. 120. 37 [Tradução nossa] ROY: I'm going, Ethel. Finally, finally done with this world, at long long last. All mine enemies will be standing on the other shore, mouths gaping open like stupid fish, while the Almighty parts the Sea of Death and lets his Royboy cross over to Jordan. On dry land and still a Fênix – Revista de História e Estudos Culturais 17 Janeiro – Junho de 2015 Vol. 12 Ano XII nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br Ethel tenta perdoá-lo, mas, não consegue. O fato de ela não conseguir perdoar Roy Cohn por seus crimes é o reflexo de um único futuro provável para o qual o fantasma consegue apontar: um futuro desprovido de esperança, de bondade e de amor. O ódio que ela sente por ele subiu e criou uma estrela no céu, e essa estrela serve como um lampejo de memória, uma memória que jamais poderá ser apagada. Fazer as pazes com essa memória de horror é aceitar que as estrelas também morrem; no entanto, o que resta dessa morte é o buraco negro, de onde nada pode escapar. ARTIGO RECEBIDO EM 19/02/14. PARECER DADO EM 20/09/14 lawyer./ETHEL: Don't count your chickens, Roy. It's over. /ROY: Over?/ETHEL: I wanted the news should come from me. The panel ruled against you Roy. (...)/ETHEL: Você não é mais um advogado./ROY: But am I dead?/ETHEL: No. They beat you. You lost. I decided to come here so I could forgive you. You who I have hated so terribly I have borne my hatred for you up into the heavens and made a needle-sharp little star in the sky out of it. It’s the star of Ethel Rosenberg’s Hatred, and it burns every year for one night only, June Nineteen. It burns acid green. I came to forgive but all I can do is take pleasure in your misery. Hoping I’d get to see you die more terrible than I did. And you are, ‘cause you’re dying in shit, Roy, defeated. And you could kill me, but you couldn’t ever defeat me. You never won. And when you die all anyone will say is: Better he had never lived at all. Cf., Ibid., 185-187.

References (3)

  1. I'll walk through a wall. Cf., KUSHNER, Tony. Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes. Millennium Approaches/Perestroika. [versão não publicada] p. 78. 34 [Tradução nossa].
  2. Fucking SUCCUBUS! Fucking bloodsucking old bat! The worst thing about being sick in America, Ethel, is you are booted out of the parade. Americans have no use for sick. Look at Reagan: He's so healthy he's hardly human, he's a hundred if he's a day, he takes a slug in his chest and two days later he's out west riding ponies in his PJ's. I mean who does that? That's America. It's just no country for the infirm. Cf., Ibid.
  3. My generation, we had clarity. Unafraid to look deep into the miasma at the heart of the world, what a pit, what a nightmare is there -I have looked, I have searched all my life for absolute bottom, and I found it, believe me: Stygian. How tragic, how brutal and short life is. How
About the author
Papers
16
Followers
20
View all papers from Vanessa Cianconiarrow_forward