Esta revista busca impulsionar o debate sobre a tortura sexual, que é central ao caso Favela Nova Brasília, e à tantos outros casos que sequer são registrados pelo Estado brasileiro. Nesse sentido, essa publicação busca se somar aos...
moreEsta revista busca impulsionar o debate sobre a tortura sexual, que é central ao caso Favela Nova Brasília, e à tantos outros casos que sequer são registrados pelo Estado brasileiro. Nesse sentido, essa publicação busca se somar aos esforços de denuncia da tortura sexual como algo estrutural e estruturante não só da sociedade brasileira, mas das sociedades de base colonial-escravista de um modo geral. E por isso a opção de incluir na revista artigos que dizem sobre o enfrentamento à tortura sexual em outros contextos da nossa região.
Em linhas gerais, a publicação reúne artigos que abordam tanto as disputas político-jurídicas relacionadas ao enfrentamento à tortura sexual quanto constroem reflexões sobre o Estado e suas instituições a partir de dinâmicas de controle racial e sexual. Em todos eles, se toma como referência central as lutas que buscam subverter essa realidade. Assim, a publicação vem no sentido de contribuir com os debates e incidências sobre essa questão, sem ter a pretensão de balizar consensos, mas guardando compromisso com a luta política.
A revista se inicia com um artigo de Nina Barrouin e Malu Stanchi intitulado “A tortura sexual e o racismo no caso Favela Nova Brasília vs. Brasil”. O texto analisa como os parâmetros da Corte Interamericana de Direitos Humanos relacionados à tortura sexual impactam seu tratamento jurídico no Brasil. Discute, também, as limitações e omissões da sentença em relação ao racismo, que é elemento central para a compreensão dessa violação em nosso contexto. Nesse processo, são mobilizados aportes que articulam gênero e raça para refletir sobre a tortura sexual como um elemento estruturante do Estado brasileiro, e assim reposicionar disputas político-jurídicas em questão.
Os companheiros do Centro de Direitos Humanos Miguel Agustín Pro Juárez do México também abordam o enfrentamento à tortura sexual no âmbito do sistema interamericano. No artigo Mulheres sobrevivente de tortura sexual em Atenco: impactos de uma luta contra a impunidade e o abuso do uso da força no México, Eduardo Lomelí e Ivette Galvan analisam as principais contribuições do referido caso para o sistema. O texto debate, também, os impactos que o caso teve no reconhecimento da persistência da tortura sexual no México, e a disputa pela implementação de medidas de não repetição que enfrentem as políticas de militarização vigentes.
Barbara Martins e Paola Fernanda, do Núcleo de Justiça Racial e Direito da FGV, por sua vez, apresentam o artigo “A tortura sexual como instrumento da violência de Estado”. O texto explora a caracterização da tortura sexual como violação de direitos humanos, focando no caso da Favela Nova Brasília e analisando outros episódios semelhantes. Ao compreender a tortura sexual como parte de um padrão sistêmico de controle social e racial, o artigo aponta para a necessidade de reformas estruturais no sistema de segurança pública brasileiro, alinhadas às obrigações internacionais de direitos humanos.
Helena Rocha e Catarina Ramos se dedicam a discutir a política de atendimento às mulheres vítimas de tortura sexual. Elas sistematizam os parâmetros nacionais e internacionais para a atenção integral às mulheres em situação de violência sexual, destacando uma dimensão frequentemente negligenciada: a caracterização da tortura em certos casos, que deve implicar em encaminhamentos especializados. No artigo "Atenção integral às mulheres em situação de violência sexual: perspectivas nacional e internacional", as autoras também defendem a necessidade de incorporar a perspectiva interseccional nas normativas de proteção, assegurando que elas dialoguem com a realidade brasileira.
No artigo “Da sentença do caso Favela Nova Brasília à primeira condenação dos agentes de Estado: O Ministério Público trilhando seus caminhos”, Eliane Pereira realiza uma análise das responsabilidades do Ministério Público no cumprimento da sentença internacional, com destaque para a obrigação de investigar, desafiando os argumentos relativos à prescrição dos crimes. Nesse percurso, a autora oferece um panorama dos desafios institucionais enfrentados pelo órgão, destacando seus deveres e a importância de sua atuação no cumprimento das obrigações internacionais assumidas pelo Estado brasileiro.
Em “Quem tem direito a um asilo inviolável? As representações de raça e gênero na construção da prática da entrada franqueada”, Amanda Pimentel investiga como as categorias de raça e gênero são mobilizadas por policiais durante buscas domiciliares sem mandado judicial em favelas e periferias brasileiras. A autora analisa decisões judiciais sobre o crime de tráfico de drogas em sete tribunais do país, com foco nos fatos e depoimentos dos policiais nos casos. A partir dessa análise, Pimentel aponta que a prática da “entrada franqueada” é viabilizada pela relação de autoridade e coerção estabelecida entre a polícia e a comunidade, especialmente com mulheres periféricas e negras. Ela argumenta que essa prática não apenas é sustentada por estereótipos raciais e de gênero, mas também compromete a proteção da garantia fundamental da inviolabilidade do lar.
Dayana Blanco e Eliana Alcalá, do Ilex Acción Jurídica, assinam o artigo intitulado “A violência de Estado contra pessoas afrodescendentes na Colômbia expressa na ação da polícia nos bairros e zonas periféricas do Caribe colombiano”. Nele, as autoras analisam como a violência policial racista se manifesta tanto em contextos de protestos quanto de “segurança cidadã”. Travam essa discussão a partir de um estudo de caso realizado em duas cidades, com ênfase nos impactos específicos dessa violência sobre a população AFRO-LGBT nas periferias. Dayana e Eliana também apresentam uma reflexão sobre as ações necessárias para erradicar essas práticas, com o objetivo de que suas conclusões possam contribuir para o fortalecimento de lutas em outros contextos regionais.
Gilmara Cunha, Liandra Paz, Tamires Ribeiro e Vinicius Silva apresentam um estudo baseado nos dados do Observatório de Violências LGBTI+ em favelas do Conexão G, revelando como as ações de segurança pública do Estado afetam desproporcionalmente a população LGBTI+ em favelas, com foco em travestis e transexuais racializadas. A análise dos dados evidencia as diversas violações de direitos enfrentadas por esse grupo, compreendendo-as como parte de um sistema de marginalização e desumanização, em franca desconformidade com as normativas internacionais de direitos humanos. Nesse sentido, o artigo “Dados de uma população invisibilizada: Um retrato da realidade da população LGBTI+ no complexo da Maré” expõe o fracasso do Estado brasileiro, apontando para a urgência de políticas que enfrentem essa realidade, considerando todas as suas nuances.
No artigo “Violências de gênero, violações de Estado: Tortura sexual enquanto invasão de territórios e corpos”, Natália Damazio e Juliana Farias propõem uma análise crítica das violências de gênero como expressões de violações de Estado, com foco na tortura sexual como ferramenta de dominação. As autoras argumentam que as incursões de agentes armados em determinados territórios estão intimamente relacionadas às invasões de corpos femininos ou feminizados por eles, invasão esta que se torna permanente e absoluta a partir da privação de liberdade. Desse modo, entendem que o racismo cisheteropatriarcal organiza o funcionamento do Estado, sendo a violência sexual importante instrumento de controle.
Por fim, Monique Cruz, Irlanne Santiago e Fabio Romão fecham a publicação com o artigo: “Interfaces entre interseccionalidade e necropolítica: Uma análise crítica sobre a seletividade do Estado em instituições de privação de liberdade”. A partir de uma perspectiva abolicionista, o artigo tem por objetivo explorar, a partir da ferramenta analítica da interseccionalidade, a privação de liberdade no país, entendendo-a como um emaranhado de formas de produção de morte. O texto examina o cotidiano de instituições de privação de liberdade, a partir de documentos públicos relacionados ao monitoramento de medidas provisórias da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Desse modo, Monique, Fabio e Irlanne analisam as violações direcionadas contra mulheres negras - cis e trans - e homens trans, que estão em privação de liberdade ou que visitam unidades prisionais. É nesse contexto que se finca o debate sobre tortura sexual, e assim, o artigo tece reflexões e perguntas que visam produzir o engajamento com a luta por uma sociedade livre de racismo, de sexismo, e sem prisões!
Esperamos que a publicação fomente muitos outros diálogos e ações nesse campo, fortalecendo essa construção em rede pelo enfrentamento à tortura sexual.