Difícil expressar qualquer opinião sobre o Jorge enquanto ainda não compreendemos sua ausência. Esse grupo que, entre outros, participou, por vários anos, das leituras de O capital e de A produção do espaço, passou os últimos tempos muito...
moreDifícil expressar qualquer opinião sobre o Jorge enquanto ainda não compreendemos sua ausência. Esse grupo que, entre outros, participou, por vários anos, das leituras de O capital e de A produção do espaço, passou os últimos tempos muito próximo a ele; encontrávamo-nos com freqüência. Éramos uma unidade em torno de sua figura. Portanto, a ausência desse querido professor e amigo ainda está por ser sentida completamente, será vivida por cada um de nós nos rumos que tomarmos, nos novos caminhos e descaminhos, agora sem suas pertinências e impertinências. "Gregários", "promíscuos", eram palavras constantes para definir os grupos dos quais Jorge fazia parte. Porque sob sua batuta, amizade, desavenças, provocações, reflexões, pensamentos e estudos eram atividades emaranhadas, fazíamos tudo ao mesmo tempo, sem perder a qualidade de nada. A presença de Jorge não era qualquer coisa; pessoa de gestos, invadia todos os poros. A princípio indecifrável, com um modo ligeiro de falar, pensar e movimentar-se, Jorge atraía por sua criatividade, alegria, humor, somados a uma inteligência e generosidade impressionantes. Com o tempo, conviver com ele significava estarmos a todo momento sendo provocados, e, nessa relação, tudo se tornava descoberta, algo novo, instigante e incômodo, que fazia pensar -ainda que o assunto fosse deveras conhecido ou aparentemente banal. Ele nos fazia olhar para outros pontos de vista, para além daqueles a que já estávamos predispostos. No grupo de estudos, mostrava-nos que o método de Lefebvre poderia ser uma lente para enxergar o mundo, fazendo-nos refletir sobre a produção do espaço, realizando a crítica radical, sem deixar escapar o "possível". Em Marx, importava-se, sobretudo, com a dialética, as contradições, que ampliavam as possibilidades e as dificuldades na compreensão da realidade. Era a partir da realidade vivida que propunha repensar a prática do arquiteto na produção do espaço, no capitalismo. O convite à reflexão vinha por inteiro, instigando a superação de idéias preconcebidas, interpretações endurecidas ou práticas prescritas. Nas discussões sobre as experiências práticas e objetos empíricos de seus alunos, apontava a necessidade de identificar contradições, recuperar potências críticas, criativas e transformadoras, e fazer com que estivessem presentes e visíveis nas produções futuras -acadêmicas, profissionais ou militantes. Teoria e prática eram mutuamente valorizadas. póspós v.16 n.25 • são paulo • junho 20 09 Era o melhor dos críticos sem assumir a função de crítico. Porque Jorge, antes de mais nada, ajudava a caminhar. Promovia espaços onde nossas dúvidas e inquietações encontravam eco. Implacável, nada lhe escapava ao apontar as deficiências dos trabalhos, nem mesmo as virtudes, às vezes não-percebidas pelos próprios autores. O primeiro a dizer como éramos pretensiosos: "Esses alunos até que são inteligentes, mas são tão ingênuos.", "Foi, voltou, subiu, desceu, acha que pode muito." Mas nem por isso nos descartava como interlocutores de fato. Estava lá, firme, participando de orientações, bancas, fazendo-nos conversar com outros que poderiam suprir nossas lacunas de conhecimento (inclusive as dele), orientando grupos de leitura da pós-graduação, da graduação e de "desgarrados". Despido de preconceitos, despreocupado em garantir títulos ou acumular pontuações, Jorge se dedicava intensamente ao diálogo com estudantes, colegas e funcionários. Procurava lançar uma provocação criativa que agregasse, estabelecesse vínculos, pontes: na sala de aula, nas assembléias, debates, praças, parques, canteiros de obra, cafés e festas. Sem deixar de lado o rigor que a teoria exige, sua presença tornava os debates estimulantes e prazerosos. Jorge dirigiu sua vida a formar-se e atuar, da melhor forma possível, como professor da FAU. Como professor-pesquisador, via a possibilidade de unir atuação profissional e política. Preocupava-se com a tendência em enquadrar a arquitetura apenas como parte das ciências aplicadas, fazendo a crítica da primazia da prática em detrimento da teoria entre os arquitetos. Argumentava que uma poderia "iluminar" a outra, reciprocamente. Ao mesmo tempo, apontava a necessidade de superar "(...) um referencial teórico restrito e obsoleto, que não dá conta das novas contradições em perspectiva: estado e autogestão, cidadania e cotidianidade, globalização e centralidades periféricas, paisagem e alienação ambiental, entre outras" 1 . Assim, mostrava como, historicamente, obras fundantes de arquitetura vinham acompanhadas de reflexão, sendo desejável uma aproximação "politizante" da arquitetura com as ciências humanas na universidade, tendo como centro os problemas sociais do país. Partindo daí, seu empenho na defesa da universidade pública permeava sua atuação, no Sindicato dos Professores da (1) Entrevista com Jorge Hajime Oseki, publicada na revista Caramelo 10, produzida por estudantes da FAUUSP em 1998, p. 176 a 183. Francisco Barros Taís Tsukumo pósin memoriam • p. 334-348 USP, com sua presença constante em mobilizações, greves, em sala de aula ou atividades organizadas por diferentes coletivos de estudantes. Sua intenção era encontrar e trabalhar um referencial teórico que pudesse orientar seus alunos. Podemos ver isso em seus trabalhos, entre outros, sua dissertação de mestrado Arquitetura em construção, na qual elabora um quadro teórico para interpretar a prática da produção de arquitetura. Todo o seu percurso adquiria maior sentido na sala de aula, em seu empenho junto dos estudantes. Coisa rara, dedicava-se muito aos alunos da graduação. Jorge deixa uma obra diferenciada. Pouco visível, dificilmente quantificável, repleta de qualidade, é inovadora e ainda um começo. A que nos referimos? Ao fato de teorizar sobre a prática da arquitetura e do urbanismo ser uma questão complexa: a cidade, lugar preferencial dessas práticas, é, nada mais nada menos que uma projeção da sociedade no espaço. Pensar esse objeto, o espaço, requer juntar o mundo físico, o social e a relação desses com o conhecimento e a produção de um espaço possível. E, pior, o físico, o social, o mental vêm sendo sistematicamente separados pelas ciências parcelares, pelo saber, e, o possível, submetido à objetividade da política. Reinventar a filosofia, uni-los, é o que nos propõe Lefebvre. A proposta de Jorge é destrinchar essas questões no âmbito da formação do arquiteto, ligadas ao conhecimento crítico das atuações profissionais e ao campo das idéias da arquitetura e do urbanismo. Não é nada pouco, nem é, sequer, tarefa para uma pessoa, ou mesmo um grupo. A grande obra do Jorge foi abrir enormes, importantes caminhos. O que permanece como ensinamento para a vida transcende qualquer esfera institucional, qualquer forma de expressão, mas se fará presente na produção individual e coletiva, acadêmica e profissional de muitos que o tiveram como professor, amigo, colega. Este texto pretende expressar o grupo de estudos, coordenado pelo Prof. Dr. Jorge Oseki e pela Profa. Dra. Ângela Rocha, composto por diversos estudantes que se reuniram para prestar esta homenagem.