Na última sexta-feira, dia 3 de julho, aconteceu o lançamento de um jornal feito por apenadas do presídio feminino Talavera Bruce, situado no Complexo Penitenciário de Bangu. Estive participando de parte da produção, que entre outras...
moreNa última sexta-feira, dia 3 de julho, aconteceu o lançamento de um jornal feito por apenadas do presídio feminino Talavera Bruce, situado no Complexo Penitenciário de Bangu. Estive participando de parte da produção, que entre outras coisas contou com as participações externas do rapeador Weelf, grupo Tribo Negra (mais uma incrível iniciativa do grupo cultural Afro Reggae) e das grafiteiras do TPM Crew – Ira, Prima Donna e Suel – estas levaram muito mais que cores ao pátio usado para atividades esportivas e banhos de sol. Para aqueles que não sabem, presídio é presídio em qualquer lugar, andar pelas galerias e conversar com as apenadas é ter a possibilidade de medir o grau de vontade que algumas têm para mudar de vida. As conversas foram tantas que confesso que não sei se tenho a capacidade ou mesmo o direito de reproduzi-las integralmente, ouvir aquelas mulheres negras, brancas, mestiças, estrangeiras. Não importa, todas ali se encontravam na mesma condição cumprindo pena por crimes cometidos. Certamente existem inocentes no meio, porém me chamou atenção o fato de não ouvir historinhas tristes sobre como o sistema é mau e que ali ninguém cometeu nenhum delito. O leitor já deve estar cansado de saber que no dia-a-dia ninguém comete nenhum ilícito; às vezes parece que alguns presídios masculinos são uma grande confraternização de cordeiros, pois ninguém ali é culpado. Lá no T.B (Talavera Bruce) observei que várias reconheceram e reconhecem seus erros, ou melhor as razões que as fizeram incorrer em ilícitos, e não almejam no futuro uma vida igual. Isso me traz a impressão de que, às vezes, em algumas situações, se não encontram solução pelo menos seguirão um caminho melhor. A criação do jornal Só Isso! é um ótimo exemplo da vontade e da capacidade de vencer os mais diferentes obstáculos que comumente impedem ou tentam impedir a reinserção daqueles, ou melhor, daquelas, que acertam suas contas com a sociedade. Penso que essa iniciativa é um grande exemplo, pois com somente um computador usado e a correria de algumas presas foi possível realizar esta grande iniciativa. Considero esse um ótimo exemplo para os adeptos do Hip Hop; imaginem se essa vontade fosse transmissível? Quantos jornais, zines e afins apareceriam para ampliar os horizontes da "nossa cultura". E é isso quando se tem vontade, automaticamente se tem ajuda, seja esta divina ou terrena. Enfim, as coisas acontecem, pois tudo conspira para o melhor resultado e acredito que dar voz a quem precisa ser ouvido é infinitamente melhor que falar por esses. Perceber o efeito que uma alegria momentânea trazida pelo som poderoso da Tribo Negra faz ao " engolir " a tensão de uma vida no cárcere e fazendo aflorar o que melhor existe em um ser humano, fazendo com que alguns olhares até então apagados brilhassem como nunca. E fica provado mais uma vez o poder da integração a partir da música e da dança. Essa sexta-feira foi realmente única e marcará um novo divisor de águas nas relações entre autoridades, apenadas e o restante da sociedade que mostra a cara de fato e tenta minimizar de alguma maneira a situação caótica em que vivemos. De nada adianta ficar no silêncio, incentivando os erros ou se omitindo; a participação se faz necessária de múltiplas formas. Parabéns: Sabrina Hagel, Lila Mirtha, Marileine Cançanção, Lotta Hägström pela iniciativa do jornal.